Era só a gente dizer que ia viajar pra Rússia que alguém vinha com alguma história estranha pra contar – normalmente envolvendo falta de simpatia ou falta de segurança. O friozinho na barriga, que já é normal antes de qualquer viagem, só fazia aumentar.

Dicas de fotografia de viagem - Jardins de Alexandrovski em Moscou na Russia

Jardins de Alexandrovski em Moscou

Mas estávamos decididos com o roteiro de viagem e eu contava os dias para realizar o sonho de ver de pertinho a Praça Vermelha e o palácio de Peterhof. Depois de escutar todas aquelas histórias, entramos no avião já conformados com algumas premissas:

  1. Na Rússia faz muito frio
  2. Russos são antipáticos
  3. A língua é impossível de decifrar
  4. Russos bebem vodka
  5. A Rússia é homofóbica
  6. As cidades são perigosas

Mas foi só desembarcar em Moscou para descobrir que a Rússia era tudo o que a gente sonhava e, ao mesmo tempo, muito diferente do que a gente esperava.

Não pegamos frio nenhum

As surpresas começaram pelo clima – depois de duas semanas passando o maior frio na Alemanha, a Rússia nos recebeu no mês de maio com confortáveis 20 graus e um belo céu azul.

O verão ainda não tinha chegado, mas em São Petersburgo o calor era tanto que eu só andava de camiseta e tomava picolé todo dia! Sem brincadeira: eu voltei para casa super bronzeada. “Passou as férias em Búzios?” – as pessoas me perguntavam e depois ficavam espantadas com a resposta 😀

Dicas para viajar pela Russia - Calor ceu azul e picole na primavera russa

Picolé todo dia em São Petersburgo

Em Moscou fazia um pouquinho mais de frio no fim da tarde e a gente usava jaqueta ou suéter… Mas realmente demos sorte com o tempo!

Os russos foram simpáticos

A parte da antipatia também não durou muito. Teve russo oferecendo ajuda pra entender o mapa quando estávamos perdidos numa estação gigante de metrô, teve família achando graça da gente fazendo mil gestos para pedir sanduíches no Subway… Ganhei até parabéns quando acertei o tamanho do pão! “Bolshoi”, eu pedi, tendo aprendido que o nome do famoso teatro de Moscou significava “grande” 😀

E teve inclusive quem conseguisse ter um diálogo relativamente completo com a gente, mesmo sem falar uma única palavra em outra língua. Como a senhorinha no Convento de Novodevichy, que falou um tempão até a gente entender que o pai dela tinha sido piloto na Primeira Guerra Mundial!

Senhorinha "conversando" em russo com o Guilherme

Senhorinha “conversando” em russo com o Guilherme

Tudo bem que eles não são o povo mais sorridente do mundo, mas se isso tudo não é simpatia, não sei o que é. E isso prova também que a comunicação é possível mesmo sem encontrar quem fale inglês.

É possível decifrar a língua

O 3º mito a cair foi justamente esse: dá pra decifrar a língua, sim. Eu e Guilherme dividimos as tarefas – ele assistiu vídeos no Youtube para aprender frases básicas e eu decorei os fonemas de cada letra no alfabeto cirílico. Não tem mistério: toda criança que já teve um “código” para escrever no diário ou desvendar mistérios vai tirar de letra!

restaurantes-na-russia-coffee-house-perto-da-praca-vermelha

Dá pra ler “Coffee House” na fachada

Com a simples transliteração, já dava para ler placas de metrô, embalagem de produtos no supermercado e várias outras coisinhas, como “restaurante”, “supermarket” e café “expresso” 🙂 Depois de alguns dias, nosso vocabulário já incluía muitas novas palavras, de tanto vê-las nos cardápios e placas (veja dicas de como se virar em russo).

Cerveja é mais popular que vodka

E foi vendo os cardápios que reparamos em outro clichê russo que já caducou: russos não bebem tanta vodka assim. Um conhecido tinha ido para Moscou a trabalho e contou que foi compelido a beber vodka às 10h da manhã (lhe disseram que era grosseria recusar).

Leia também: Por que a gente viaja para lugares estranhos?
Dicas para viajar pela Russia - Mercado vodka

Dá pra ler “Coffee House” na fachada

Mas nos bares quase não encontrávamos a bebida no menu e, para todo canto que olhávamos, só víamos gente com copos e garrafas de cerveja. Pior: em vários cafés, a vodka disponível era Absolut. Ora bolas… fui daqui até a Rússia para tomar vodka sueca!?

Perguntamos para a Nastia, uma jovem russa que trabalhava no nosso hostel, e pelo que ela explicou a vodka russa é que nem a cachaça brasileira. É uma bebida que a gente oferece para os turistas, mas que na verdade é mais popular nas cidades de interior. E, assim como acontece aqui, os mais velhos ainda costumam tomar, mas os jovens em geral só usam para fazer drinks.

Sobre a homofobia na Rússia

Esse é um tema super complicado, e todo mundo já viu vários documentários e vídeos com câmeras secretas mostrando cenas de intolerância. Obviamente, a nossa viagem foi uma experiência curta para chegar a qualquer tipo de conclusão definitiva, mas o que observamos não foi nada muito diferente de outras capitais do mundo.

Em Moscou e São Petersburgo vimos pessoas do mesmo sexo demonstrando afeto, andando de mão dada, tudo normal. No parque, no metrô, nos cafés. Ninguém pareceu interferir, ou sequer dar muita atenção.

dicas-para-viajar-pela-russia-primavera

Gente jovem no parque

Também conversei com a Nastia sobre a “lei anti-gay”, que tinha causado a maior repercussão no Brasil quando foi aprovada, em 2013. Ela ouviu falar da lei, mas disse que não percebeu muita diferença e que os amigos gays continuavam a viver suas vidas exatamente da mesma forma.

O que ela contou é que as amigas lésbicas que moram em cidades pequenas têm mais dificuldade para sair do armário, pois o ambiente é mais provinciano e conservador. Acho que isso também acontece no Brasil, né?

Nos sentimos bastante seguros

Por último, a questão da segurança. Circulamos ao redor das atrações e passamos também por outros trechos menos turísticos, mas em momento algum tivemos qualquer constrangimento, mesmo segurando câmera, consultando mapa e fazendo cara de gringo.

Ficamos atentos a bolsas e mochilas (especialmente nos horários de pico do metrô) e teve um carinha que veio abordar a gente perto da Praça Vermelha com todo jeito de golpe de turista, mas não demos conversa e pronto.

Policiais russas no metrô

Policiais russas no metrô

Em São Petersburgo, descemos do passeio de barco às 3h da madrugada e voltamos a pé até o hostel sem nenhum susto, maior tranquilidade.

De onde vêm os preconceitos?

A impressão que eu tenho é que a imagem da Rússia entre os brasileiros é muito marcada por dois aspectos: a ideia hollywoodiana de que eles eram os vilões da Guerra Fria e o fato de estarem sob o mesmo rótulo de “economia emergente” que o Brasil, como parte dos BRICs.

Acontece que viajar pela Rússia faz a gente ver o país com outros olhos. Primeiro porque é bem legal ver a história da Guerra Fria sendo contada pelo lado deles (o Museu da Cosmonáutica é o lugar perfeito para perceber isso). Ninguém acha nada demais os EUA se orgulharem tanto da NASA – ora, a corrida espacial era igualmente importante para os russos e eles também tiveram um papel importante na evolução tecnológica decorrente disso.

Museu da Cosmonautica - Monumento aos Conquistadores do Espaco em Moscou

Museu da Cosmonáutica

Depois, porque jogar a Rússia no mesmo saco que o Brasil significa esquecer que eles já foram um império grande, rico e poderoso. Mas logo nas primeiras horas da viagem os palácios maravilhosos e as linhas de metrô bem desenvolvidas servem de lembrete de que a Rússia tem uma imensa bagagem do passado enquanto nós estamos aqui eternamente na condição de “país do futuro”.

A Rússia nos impressionou muito. Voltamos completamente apaixonados. Saímos daqui prontos para encontrar um país frio e conhecemos cidades lindas, bem cuidadas, com transporte eficiente, arquitetura monumental, atrações interessantíssimas e pessoas prestativas. Que bom que fomos de coração de aberto! Mas, afinal, não é para isso que a gente viaja? 🙂

Veja todas as dicas de Moscou
Veja todas as dicas de São Petersburgo
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25 Comentários

  1. Agora já posso voltar à Grécia sem me sentir um completo anarfa. 🙂
    E se aquelas são as tiras russas, espero encontrar um juiz Moro por lá. 🙂

    • Fiquei feliz com o seu comentário, obrigada! Voltei apaixonada pela Rússia – talvez os locais tenham sido mais pacientes pq visitei o país numa estação que não é cheia de turistas. Recomendo a viagem! 🙂

  2. Oi Fernanda,

    Muito legal esse seu post. Estou indo para a Rússia em 1 semana e essas são coisas que escuto frequentemente. E apesar de dar aquele “medinho” eu tenho certeza que chegando lá terei a mesma sensação que você.
    As pessoas falam muito baseado nos “clichês” e no que ouvem por aí. É como os famosos: “os franceses não gostam de falar inglês”, “os alemães são grossos”. … todos eles podem cair por terra. Basta você visitar o lugar sem o pé atrás, sem achar que já sabe tudo sobre as pessoas e sobre o lugar. É só viajar com a mente aberta.

    Mais uma vez parabéns pelo post… vou ler os outros agora.

    Beijos!

  3. Olá, Fernanda. Conheci seu blog fazendo pesquisas sobre a Russia e adorei!! Qual a maneira mais pratica e em conta de ir de Moscou para St. Petersburg e em quais sites posso comprar os bilhetes online?
    Obrigada!

    • Oi, Mariana! Obrigada!
      Eu fui de Moscou a São Petersburgo com o Sapsan, o trem de alta velocidade que é caro (US$ 120 aprox.) mas faz o percurso em 4h e é bem confortável. Muita gente usa o trem noturno, que é bem mais barato e leva 8h no trajeto. Falei um pouco sobre isso e indiquei um tutorial para comprar a passagem no final deste artigo aqui: http://wp.me/p4eMct-1yy
      Também existem companhias aéreas relativamente baratas, como a S7 (http://www.s7.ru/en). A pegadinha é que os aeroportos de Moscou e o de São Petersburgo são bem distantes do centro das cidades, então desconfio que o tempo de deslocamento, o custo do transporte e a antecedência do checkin não compensam…
      Fica de olho aqui no blog que ainda vai ter muita dica da Rússia! 🙂

  4. Um dia, eram 2hs da tarde aqui na minha cidade de Patos de Minas. O telefone toca e minha filha de 27 anos me pede a benção e diz: “pai são 9hs da noite aqui em São Petersburgo e o sol está rachando, amanhã vou ao museu hermitage e fotografar aquele quadro que você me pediu: do Paulão de Tarso ao lado de Pedro, o el greco, um dos seus símbolos sagrados preferido.” Ela estava sozinha, os Céus ortodoxos e católicos a protegeram, tornaram sua visita inesquecível…

  5. Olá, Fernanda! Estou adorando o blog!
    Tenho uma dúvida financeira. Poderia me ajudar?
    Você acha que uns 35.000 – 40.000 rublos são o suficiente para passar uns 5 dias em Moscou? Talvez um dia em São Petersburgo.
    Obrigado.

    • Oi, Caio! Tudo bom? Legal saber que curtiu o blog 🙂 Desculpa a demora pra responder, tive que olhar meu caderninho pra lembrar dos preços!
      Eu passei 10 dias na Rússia por menos que isso (sem contar hostels), acho dá e sobra. São Petersburgo é um pouco mais caro que Moscou, e tem atrações mais valorizadas também, como os palácios (lindos demais!), além do trem de alta velocidade que também não é baratinho. Em Moscou cada atração custa uns 250-300 e você compra 5 bilhetes de metrô por 150.
      Tenta pegar dica de restaurantes (aqui no blog indico alguns) pq isso é o que mais varia no orçamento na Rússia: tem lugar onde vc come bem 600 rublos, e tem outros onde a conta dá quase 2.000 por pessoa! Não deixa de ver as outras dicas: https://vontadedeviajar.com/destino/russia 😉
      Abs e boa viagem!

  6. Olá Fernanda tudo bom? Estou em Paris e vou pra moscou no final do mês, gostaria de saber a sua opinião, deve trocar o dinheiro aqui antes de ir ou deixo pra trocar lá?

    • Oi, Isabella! Se você quiser trocar um pouco só pra ter algum dinheiro ao chegar, ok… Se não, você faz isso no aeroporto. Mas o grosso do orçamento eu levaria em euros para trocar nas casas de câmbio do centro de a Moscou 😉
      Beijos e boa viagem!

  7. Que demais, tivemos a mesma impressão sobre a Rússia e sobre os russos… Nós provamos na pele sobre o clima (pegamos 25 a 30) e também percebemos que falar 1 ou 2 palavras em russo (e não inglês) contribui para que eles não sejam antipáticos… Quanto a Vodka, também não tomamos nenhuma por lá, mas trouxemos 2 garrafas de putinka. A cerveja não era considerada bebida alcoólica até pouco tempo atrás e nossa amiga russa nos disse que eles não bebem mais tanta vodka, porque o alcoolismo é um problema muito grave lá e o governo tenta fazer com que os mais jovens não sigam a linha dos mais velhos… Também vimos diversos casais homossexuais andando tranquilamente nas ruas, inclusive tenho um amigo que vai pra lá todo ano e nunca teve nem um tipo de problema. Muito legal ver que vocês também pensaram a mesma coisa.
    🙂

    • Bem legal mesmo, Itamar! A gente escuta tanta coisa polêmica sobre a Rússia, que é legal saber que mais gente curtiu a viagem!
      Também trouxemos uma garrafa de vodka – a nossa escolhida foi a Russian Standard, muito boa 🙂

  8. Otimas e esclarecedoras dicas. Ja enviei um comentário mas estou em dúvida se foi. Desculpe me vou repetir. Tenho 73 anos e viajo quase sempre sozinha. Nao viajo como turista viajo como viajante. Fico em hostel e utilizo transportes públicos. Estou planejando viajar para Rússia em maio 2017. Nao sou fluente e m inglês mas não tenho dificuldade em me comunicar. Lendo seu blog fiquei animada mas ao mesmo tempo insegura pela dificuldade do idioma. Gostaria, se possível, de saber sua opinião. Agradeço antecipadamente a atenção. Obrigada

    • Oi, Norma! Legal que as dicas do blog estão sendo úteis 🙂 Nós viajamos em maio e demos sorte com o tempo – pegamos dias lindos, mas é bom levar casacos bem quentinhos de qualquer jeito.
      Não faz mal que você não seja fluente em inglês, os russos também não são! hahaha! Anota algumas expressões básicas (ex. “adín biliét” para comprar ingresso ou ticket de metrô) e instala o aplicativo Maps.me no celular com o mapa de Moscou (que funciona com ótima precisão para trajetos a pé!).
      Uma viajante independente como você vai se virar numa boa! O pessoal do hostel também vai poder ajudar 🙂 Aliás, nós ficamos num hostel ótimo em Moscou – se você quiser dar uma olhada…
      Valeu pela visita ao blog e boa viagem!

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