Vang Vieng, no Laos, é um lugar lindo e que recebe jovens viajantes do mundo todo.  Johnny, o nosso guia local (que, apesar do apelido, era laosiano mesmo), estava certo quando disse que era uma cidade descaracterizada. Já não guarda as tradições do país, não exibe seus monges em veste laranja pela manhã, e é infestada de bares irlandeses e australianos, lanchonetes de cheeseburger, barraquinhas de crepes e por aí vai. Para se ter uma ideia, num dia comum, o número de turistas é 3 vezes maior que a população local (atualmente, 51 mil  habitantes).

Mas isso também quer dizer que a cidade é super animada e aproveita suas belezas naturais para oferecer a seus visitantes todo tipo de atividades de lazer e esportes radicais. Vang Vieng foi realmente uma das paradas mais divertidas do roteiro pelo Sudeste Asiático, com direito a voo de balão, passeio de scooter, banho de lagoa e cachoeira, além da famosa descida pelas corredeiras do rio Nam Song! Mas é preciso tomar alguns cuidados…

O hospital mais próximo fica na capital, Vientiane, a 4 horas de viagem. Mesmo lá, os recursos médicos são bastante limitados. E isso não combina nada com as ofertas de aventuras que estão por todos os lados…

A bela vista do hotel sobre o rio Nam Song

O tubing é a atividade mais popular de Vang Vieng. Foi o tubing que colocou essa pequena cidade na trilha dos mochileiros e transformou o lugar, que um dia foi rural, em uma “party town”. A ideia é simples: a gente aluga uma bóia em uma lojinha da cidade e vai de tuk-tuk até um ponto mais alto do rio Nam Song – depois, é só relaxar enquanto as águas te levam calmamente de volta. A vista é incrível e a galera foi toda junta, batendo papo, pegando sol e se refrescando nas águas do rio. Em época de cheia, a descida não leva mais que 2 horas; mas quando o rio está mais seco, dá pra ficar lá por quase o dobro do tempo numa boa.

Tubing no rio Nam Song: vida boa!

O ponto de partida é o “First Bar”, de onde o pessoal leva algumas cervejas pra ir tomando nas bóias. Não é difícil imaginar que, à medida que a cidade foi se tornando conhecida, surgiram mais e mais bares à margem do rio vendendo todo tipo de drinks, né? O mais comum é o “Lao-Lao whisky bucket” – uísque feito de arroz e servido não em copos, mas em baldes (não é um balde com uma garrafa de whisky dentro, é um copo do tamanho de um baldinho de praia cheio de whisky e gelo). Logo surgiu também a música eletrônica a todo volume e o rio virou uma festa!

O problema é que o Nam Song é todo formado por rochas… E não é raro alguém resolver saltar da beira do rio (ou fazer qualquer tipo de gracinha) e se machucar em pedras não tão distantes da superfície, quebrar algum osso ou algo assim. O tubing foi ganhando fama ao longo da última década e o número de acidentes foi aumentando a ponto de a cidade registrar a média de uma morte por semana! Para frear essa estatística terrível, esse ano (pouco antes da nossa viagem) as autoridades intervieram e fecharam quase todos os bares ao longo do rio. Também foram retiradas as cordas e tobogãs que convidavam a um mergulho perigoso.

Na cachoeira com nossas amigas da Austrália e da África do Sul

Na cachoeira com nossas amigas da Austrália e da África do Sul

Ainda é possível encontrar alguns habitantes locais, aqui e ali, vendendo cerveja em pequenos isopores à margem do rio. Eles jogam uma corda para puxar da água os interessados em se “reabastecer” e deixar as últimas latinhas (nem pensar em jogar lixo no rio, a água é bem limpinha).

As drogas também se tornaram bem comuns em Vang Vieng (li que não era difícil encontrar bares vendendo “happy pizza” ou “magic fruit shakes”, mas não cheguei a ver por lá), o que ampliava a taxa de mortalidade entre os turistas, devido aos casos de overdose e afogamento por perda de consciência. Em teoria, as drogas no Laos são proibidas por lei e as penas são severas. Na prática, a banalização do consumo levou ao surgimento de um golpe “caça-níquel”: os caras que abordam os turistas para oferecer drogas denunciam seus compradores para a polícia e depois levam uma porcentagem do valor da fiança.

Ao que parece, agora as autoridades locais estão tentando acabar com a bagunça. A nossa experiência no tubing foi uma tarde relaxante, no maior estilo “vida boa”, que em nada se compara à loucura que era antes.

Mas o tubing não é a única atração de Vang Vieng. O nosso dia de aventuras começou muito mais cedo, às 5h30 – quando eu, Guilherme, Leticia e nossa amiga sul africana Phila saímos para voar de balão. A chuva de manhãzinha passou logo e deu lugar a um belo dia de sol, perfeito para apreciar a vista verde do Laos, o horizonte enfeitado de montanhas e as pequenas casas que abrigavam gente simpática, que nos acenava enquanto sobrevoávamos.

Andar de balão normalmente é uma atividade cara (custa, em média, US$ 500 na Nova Zelândia, £ 99 no Castelo de Leeds, na Inglaterra, e uns € 140 na Turquia, onde o balão se tornou a principal atração turística da região da Capadócia). Mas o Laos é um país mais simples, e lá o voo de 40 minutos fica por US$ 80. Foi uma experiência super legal, eu nunca tinha voado de balão!

Voltamos para o hotel antes das 8h e ainda conseguimos aproveitar o café do Elephant Crossing Hotel (o melhor café da manhã que tivemos no Laos) antes de encontrar o pessoal do grupo para o passeio de scooter.

Eu estaria mentindo se dissesse que não foi divertido, mas esse passeio de scooter é outra das ideias mais perigosas que a cidade pode oferecer. Os cinco minutos de instrução obviamente são insuficientes para preparar alguém para as estradinhas de terra e pedra que levam à Lagoa Azul e à Cachoeira Kang Youy. Ainda mais considerando que muitas das pessoas do grupo nunca tinham dirigido uma moto na vida e que não havia capacetes suficientes para todo mundo.

Se restava alguma dúvida de que isso não era nada seguro, o tombo de moto que a Phila e a Leticia levaram deixou claro. Pelo menos elas não estavam em alta velocidade e tiveram apenas alguns arranhões…

A verdade é que a lagoa e a cachoeira são imperdíveis e têm a água mais azul que já vi na vida! As paisagens são lindas e o mergulho é uma delícia sob o sol do Laos! Sem dúvida, vale cada sacudida nas estradas ruins… Mas o ideal é fazer o passeio com quadriciclos, que são mais seguros do que as motos (quando fomos alugar, eles não estavam disponíveis…).

Galera de moto a caminho da Blue Lagoon

Galera de moto a caminho da Blue Lagoon

Se for encarar a moto mesmo, faça questão do capacete e não aceite o brinde da promoção que oferece um shot de whisky por veículo alugado (ou, pelo menos, só beba na volta). Mesmo quem já dirige moto há muito tempo precisa ter atenção redobrada pois as estradas são bastante traiçoeiras e cobertas de pedras escorregadias. Quem vai na garupa também tem que tomar cuidado para não queimar a perna no cano do exaustor.

A lagoa inacreditavelmente azul

A lagoa inacreditavelmente azul

Vang Vieng é uma cidade incrível, linda, divertida, animada… Mas é um teste ao juízo. O importante é tomar cuidado e tentar não se meter em furadas. Olhe com alguma desconfiança para os pacotes oferecidos pelas agências de turismo locais que, no fim das contas, não assumem responsabilidade por eventuais acidentes. Convenhamos: é improvável que você aprenda a escalar com apenas uma aula de 4 horas, né? Melhor não tentar aprender justo numa cidade sem hospital. Um pouco de bom senso vai bem.

>> Veja aqui uma lista do que levar para uma viagem pelo Sudeste Asiático.

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12 Comentários

  1. Eu não tenho coragem pra isso não. Acho que passei da idade. Mas imagino que ‘grandes aventuras’ como essa provoquem a sensação de superação, deixando as lembranças ainda mais especiais.

  2. […] Cruzamos a fronteira da Tailândia para o Laos de barco. Passamos 2 dias muito agradáveis navegando pelo rio Mekong, batendo papo, lendo e jogando cartas com a galera até chegar em Luang Prabang. Paramos na pequena Pakbeng para passar a noite, um vilarejo com uma surpreendente oferta de pousadas e pequenas padarias que têm internet WiFi grátis e os melhores muffins do mundo […]

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