Provo: a contracultura que fez Amsterdam se tornar o que é

O que parece só uma estátua de um menino foi o epicentro de um dos mais importantes movimentos de contracultura do mundo. A praça Spui, no centro de Amsterdam,  foi ponto de encontro do Provo, um grupo anarquista que mudou a história da Holanda para sempre.

Foram eles que, pela primeira vez, levantaram as bandeiras da legalização do consumo de drogas e da bicicleta como meio de transporte em Amsterdam. A Holanda que a gente conhece hoje não seria a mesma sem eles!

Provos Amsterdam - Estatua Het Lieverdje Spui
Het Lieverdje: a estátua do menino em Spui

O nome do movimento veio da palavra provokatie (provocação em holandês), que era exatamente o que eles faziam – provocavam as autoridades e as grandes instituições para chamar a atenção da população para suas causas.

Manifestações políticas se misturavam a intervenções artísticas nonsense para debochar das regras sociais, especialmente dos valores da monarquia Orange e da burguesia consumista.

Provos Amsterdam - Spui estatua Het Lieverdje
Spui, ponto de encontro do movimento Provo

Eles tinham consciência de que a sociedade era pautada pelo espetáculo e por isso usavam táticas que incluíam trotes para a polícia, invenção de boatos sobre a família real e pichações engraçadinhas em cima de outdoors de propaganda… tudo para causar escândalo, mas sem nunca apelar para a violência.

Os provos eram os hipsters da zoeira – para eles, a zoeira já não tinha fim 50 anos atrás. Muito antes de virar modinha 😎

Provos Amsterdam - Robert Jasper Grootveld - Protesto antitabagista 1961
Robert Jasper Grootveld em protesto antitabagista, 1961

Os protestos anti-tabagistas eram um de seus maiores focos. Os provos viam o cigarro como a droga dos consumistas, não entendiam por que o cigarro era liberado enquanto a maconha era proibida, e por isso criaram uma série de ações de desobediência civil para reivindicar a legalização da maconha.

Espalharam por Amsterdam centenas de maços com desenhos fluorescentes, alguns com baseados de verdade e outros falsos (feitos com algas, palhas, comida de gato, pedaços de cortiça), fazendo com que centenas de cidadãos fizessem denúncias nem sempre reais, gerando estresse e confusão na polícia.

Provos Amsterdam - Protesto ao redor da estatua do menino Het Lieverdje Spui 1966
Protesto ao redor da estátua do menino Het Lieverdje, Spui, 1966

E assim surgiu o que foi chamado de Marihuettegame, um jogo em que ganhava ponto quem fosse pego pela polícia fumando alucinógenos fake, como chá ou orégano… rs rs!

“Para dar caça a alguns consumidores de erva, os agentes da polícia, notórios consumidores de nicotina, efetuam incursões-surpresa, que depois são propagandeadas na imprensa, mediante artigos escritos por jornalistas alcoolizados e lidos por um público que, por sua vez, é escravo da televisão ou da nicotina. Quem tem direito de dizer ao outro que não deve consumir uma determinada substância?”, questionava Robert Jasper Grootveld, um dos fundadores do movimento.

É só ver um episódio da série Mad Men para lembrar o que o cigarro representava socialmente na década de 60.

Provos Amsterdam - Robert Jasper Grootveld em Spui 1966 - Foto Cor Jaring
Robert Jasper Grootveld, Spui, 1966 – Foto Cor Jaring

A escolha da praça Spui para o ponto de encontro dos manifestantes não era por acaso: a estátua do menino foi doada à cidade pela Hunter Tobacco Company, então fazer protestos anti-tabagistas ali ganhava um toque irônico a mais. Além disso, como boa parte das redações de jornais ficavam ali por perto, era um lugar estratégico para armar o circo e chamar atenção da mídia.

Outras campanhas sensacionais se seguiram, todas bem à frente de sua época – como questionar o uso de carros e seu impacto negativo na vida urbana em pleno boom da indústria automobilística ou defender a venda de camisinhas a preços baixos antes da AIDS ser uma preocupação social.

Provos Amsterdam - Protesto pelo Plano da Bicicleta Branca
Protesto pelo Plano da Bicicleta Branca, em 1966

O mais interessante era que os Provos iam além dos protestos e criavam propostas de soluções para problemas sociais e ambientais: os chamados Planos Brancos.

O mais conhecido foi o Plano das Bicicletas Brancas (White Bicycle Plan), que propunha a restrição da circulação de carros no centro de Amsterdam, para aumentar a adesão ao transporte público, e a disponibilização de bicicletas para uso coletivo.

Os próprios ativistas distribuíram 50 bicicletas brancas pela cidade, com o código do cadeado escrito nelas mesmas, para que qualquer pessoa pudesse usá-las.

Provos Amsterdam - Bernard de Vries com cartaz do White Bicycle Plan 1966 - Foto Cor Jaring
Bernard de Vries com cartaz do White Bicycle Plan, 1966 – Foto Cor Jaring

A moradia urbana era outra questão importante. Enquanto os moradores tinham pouca oferta de apartamentos para alugar, especuladores imobiliários continuavam comprando prédios e deixando-os fechados, para manter os preços subindo.

Os manifestantes começaram então a pintar de branco as portas dos prédios vazios, para sinalizar que às pessoas em busca de moradia que aquele lugar poderia ser ocupado.

Provos Amsterdam - Squatting predio ocupado em 2015
Squatting: prédio ocupado e grafitado em resposta à ameaça de demolição em 2015

As ocupações, que ficaram conhecidas como “squatting” ou “okupa”, se tornaram recorrentes em ondas anarquistas no mundo todo e persistem até hoje – não apenas em Amsterdam mas em muitas outras cidades do mundo, como Londres e Barcelona.

Mas como todo movimento anarquista que se preze, o Provo durou pouco. As primeiras brincadeiras começaram em 62, ganharam força em 1965 e, dois anos depois, Robert Jasper Grootveld e seus parceiros declararam o movimento encerrado.

Provos Amsterdam - John Lennon Yoko Ono com bicicleta branca no Bed In 1969
John Lennon e Yoko Ono com bicicleta branca no Bed In em Amsterdam, 1969

Nesse curto tempo de existência, tiveram uma influência enorme nas revoluções francesas de Maio de 68 e no movimento hippie americano, além de ter dado início a uma série de novos grupos ativistas na Holanda.

Não foi à toa que John Lennon e Yoko Ono escolheram Amsterdam para ser o local de seu primeiro protesto “bed in”, em 1969, e trouxeram uma bicicleta branca para o quarto.

O Provo só não ficou tão famoso mundialmente porque, além de ter seus manifestos e tabloides escritos em holandês e uma atuação essencialmente local, “faltou o megafone da música pop”, como bem notou o italiano Matteo Guarnaccia – artista genial que estudou diversos movimentos de contracultura no mundo e publicou um livro dedicado à história do Provo.

De fato, hippies e punks tinham grandes aliados na música para difundir suas mensagens, mas os provos não.

Provos Amsterdam - Grupo feminista Dolle Mina anos 70
Grupo feminista Dolle Mina, nos anos 70, em protesto pró-aborto

Ainda sim, mesmo sem ter tido um “Sex Pistols”, tiveram ao menos uma “Vivienne Westwood”. A provo Marijeke Koger virou a estilista preferida dos artistas-ativistas ingleses e desenhou nada menos que o figurino dos Beatles para o capa do disco Sgt Pepper´s Lonely Hearts Club Band 😉

Os jovens holandeses dos anos 60 foram uma referência definitiva para os movimentos que surgiram em Londres nas décadas seguintes, de questionamento ao status quo.

Provos Amsterdam - Reuniao do Kabouters grupo de squatters 1970
Reunião do Kabouters, grupo de squatters dos anos 70

O tabloide do Provo também marcou época, com uma concepção gráfica inovadora que impulsionou a imprensa independente não só na Holanda como em vários países – foi nessa mesma época que surgiu a revista londrina It.

Pasquins e zines underground explodiram junto com as ondas de contracultura que se seguiram em todo o mundo, como resposta aos questionamentos à grande imprensa conformista e corrupta.

Provos Amsterdam - Zines da Contracultura anos 60 - blog Vontade de Viajar
Zines editados pelos Provos em 1966

Em um determinado trecho de seu livro, Guarnaccia define bem o impacto que o Provo teve na vida de Amsterdam. Ele diz que, depois do flower power, “enquanto todas as outras sociedades ocidentais foram trazidas de volta à Terra, a sociedade holandesa ficou nas nuvens”.

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