Escritores são acima de tudo observadores – eles pescam justamente aqueles detalhes que tornam as pessoas e os lugares tão peculiares. Escolhem as palavras certas para fazer um retrato (ora romântico, ora satírico) da vida numa determinada época e lugar. Acho que é por isso que livros e viagens combinam tão bem 🙂

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As cidades onde os escritores vivem e por onde eles viajam são muito mais do que o cenário de suas histórias – às vezes elas são musas inspiradoras, às vezes se tornam parte dos próprios personagens. Ou você acha que Sherlock Holmes seria o mesmo se não fosse londrino?

E se nas páginas dos livros as grandes viagens sempre são interessantes, sem dúvida as aventuras vividas pelos próprios autores também fazem toda a diferença. Acho engraçado pensar que o Código Da Vinci não existiria se Dan Brown, que é americano, não tivesse viajado pela Europa. E não dá nem para imaginar o que seria das histórias de Hemingway sem a efervescência cultural de Paris na década de 20.

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Quando o site britânico Lovereading lançou o Map Book Mash-up (uma espécie de Google Maps de livros), comecei a imaginar como seria de fato viajar para reviver as cenas que a gente mais gostou de ler. Escolhi 3 livros bem diferentes – um moderno, um clássico e um pop – que rendem bons roteiros de viagens pela Europa. Prepara a mala e não esquece de levar alguma coisa para ler no avião!

O Retrato de Dorian Gray em Londres

As excentricidades e extravagâncias de Dorian Gray se passam em Mayfair, bairro elegante onde vivia a alta sociedade de Londres no século 19, e esse é nosso primeiro destino. Entre as grifes da Oxford Street e o Hyde Park, até hoje essa área continua sendo uma das mais caras da capital inglesa. Dê uma volta pelo bairro imaginando a vida aristocrática de Lord Henry Wotton e escolha um bom restaurante para comer bancando o fino.

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Viagens Literarias - Warwick Street Mayfair Londres

Warwick Street em Mayfair – Foto: Cherry X

Você pode visitar a Royal Academy of Arts, para desgosto de Lord Henry, que a achava muito grande e mainstream, ou pode conferir a Grosvenor Gallery, que na época era uma galeria de arte super vanguardista, onde Henry sugere que Basil Hallward (pintor do infame retrato) exponha sua obra.

Mas se em Mayfair Dorian Gray vivia de aparências, quando ia para o East End de Londres ele se entregava a uma vida de crimes, entre bordéis e casas de ópio. Se passar por ali, pode procurar o Wilton’s Music Hall (a 10 min da Aldgate East Station), uma das casas de show mais antigas de Londres, que foi cenário para um cabaré no filme de 2009.

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Gravação de Dorian Gray no Wilton Music Hall

Com a fachada em frangalhos e muitos de seus traços vitorianos em estado original, o teatro (que voltou a ganhar vida com o público hipster-vintage) tinha o tom decadente perfeito para a vibe hedonista fin-de-siècle do romance de Oscar Wilde.

Dom Quixote em Barcelona

O personagem literário mais famoso da Espanha é de La Mancha, todo mundo sabe. Mas depois de cruzar as terras de Aragão em aventuras heroicas, Dom Quixote e seu fiel companheiro Sancho Pança chegam à Cataluña e vêem o mar pela primeira vez na praia de Barceloneta.

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Barceloneta de Don Quixote – Foto: Samuel Mercier

Escolha um restaurante de frutos do mar e imagine a cena do duelo de lanças entre o Dom Quixote e o Cavaleiro da Branca Lua acontecendo naquela praia. Ou simplesmente sente-se ao sol e “estenda a vista por todos os lados”, como fez o herói, para se impressionar com o imenso mar Mediterrâneo. Com sorte, quem sabe passam galés com bandeiras ao vento, varrendo as águas do jeitinho que Cervantes descreveu.

Para continuar o passeio por Barcelona e caminhar pelo Bairro Gótico atrás de referências ao romance picaresco, dá uma olhada no blog Roteiros Literários.

A Culpa é das Estrelas em Amsterdam

Você nem precisa mudar muito seus planos para passar pelos cenários do livro A Culpa é das Estrelas em Amsterdam. Hazel Grace e Augustus Waters fazem vários passeios turísticos clássicos quando viajam para lá – visitam a Casa de Anne Frank e passam pelo túnel do Amsterdam como todo viajante.

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O autor John Green em Amsterdam

Mas tem dois lugares que você pode querer visitar se for fã do livro (e do filme)… O primeiro é o Hotel Filosoof, onde eles se hospedam em Amsterdam. Gus fica no quarto Heidegger, que leva o nome de um filósofo alemão, e Hazel fica com sua mãe no quarto Kierkegaard, que homenageia um filósofo dinamarquês. Atualmente o hotel está fechado para reformas, tomara que mantenha o tema!

O segundo lugar é o banco à margem do canal onde o casal tem uma das cenas mais tristes e românticas do filme (no livro essa conversa acontece no hotel). É um banquinho verde como muitos outros em Amsterdam, mas esse no número 4 da Leidsegracht ficou pop depois do filme, chegou a ser roubado (!!) e agora vive cheio de pichações de nomes e declarações de amor. O blogueiros do canal 3em3 fizeram esse roteiro, vale ver o vídeo deles 🙂

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Banco no canal em Amsterdam

Roteiros literários: viagens e livros

Viagens marcantes sempre serão inspiração para grandes histórias, mas os livros que não falam especificamente de aventuras também podem ser interessantes para um viajante que quer ter uma janela para espiar e entender a vida local.

Uma das melhores formas de conhecer o mundo pelos livros é procurar os autores de cada país, pois os lugares estarão naturalmente na narrativa. Ler Isabel Allende antes de ir para o Chile ou Garcia Marques antes de embarcar para Cartagena faz a gente criar uma relação muito mais íntima com o destino da viagem.

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De um jeito ou de outro, livros são grandes companheiros de viagem. Eles inspiram roteiros maravilhosos, nos acompanham enquanto estamos na estrada e são capazes de nos fazer viajar mesmo quando estamos em casa.

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