As estações fantasmas no metrô de Berlim são uma das evidências mais curiosas da divisão da cidade durante o período da Guerra Fria.

Estacoes fantasmas de Berlim - Nordbahnhof perto da Bernauer Strasse

Quando o Muro de Berlim foi erguido, em 1961, o objetivo dos comunistas era bloquear completamente o acesso à Berlim Ocidental, uma “ilha”capitalista no meio do território dominado pelos soviéticos na Alemanha.

Acontece que Berlim não era uma cidade qualquer – era uma capital com população de mais 3 milhões de pessoas e sistema de transporte já bem desenvolvido. Havia linhas de metrô e trem, construídas antes da divisão, que passavam pelos dois setores… Era preciso evitar que essas linhas servissem como ponto de travessia para Berlim Ocidental.

Estacoes fantasmas de Berlim - Mapa das linhas que cruzavam Berlim Ocidental

Os comunistas resolveram bloquear as estações das linhas que cruzavam seu território, mas que começavam e terminavam no setor capitalista. Essa era a situação de duas linhas de U-Bahn (metrô) e uma linha de S-Bahn (trem). Desativadas por mais de 30 anos, elas acabaram se tornando “estações fantasmas”.

Esse curioso efeito colateral da Guerra Fria no sistema de transporte de Berlim é tema de uma exposição na Nordbahnhof com uma série de painéis nas paredes mostrando a operação de transporte na época e contando histórias de gente que tentava usar os túneis subterrâneos do metrô para fugir para a Alemanha Ocidental.

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A Nordbahnhof era uma dessas estações de fronteira, ao lado do Memorial do Muro de Berilm. Como cada saída era em um setor da cidade, ela foi fechada e teve todas as suas passagens emparedadas e equipadas com alarmes.

A Friedrichstrasse e a Alexanderplatz, que são estações de conexão entre linhas, eram compartimentadas para que os cidadãos orientais não tivessem contato com os ocidentais entre uma plataforma e outra.

estacoes-fantasmas-de-berlim-estacoes-de-metro-desativas-na-guerra-fria

Para os cidadãos do lado capitalista, pegar as linhas de metrô que passavam pelas estações proibidas devia ser uma experiência bem estranha… As estações desertas e mal iluminadas eram guardadas por soldados armados e o metrô passava em baixa velocidade, mas sem parar. Só era possível descer do trem depois que voltasse ao território da RFA.

Obviamente, a Alemanha Oriental cobrava caro pelo uso de seu subsolo, como forma de pressionar o setor capitalista.

Enquanto isso, na superfície, os acessos às estações foram bloqueados, as placas do metrô foram arrancadas… Aos poucos, aquelas estações fantasmas sumiam da paisagem das ruas e dos mapas de Berlim Oriental.

Imagina o choque quando as estações começaram a ser reabertas, depois da queda do muro em 1989 – as pessoas se deparavam com placas e cartazes da década de 60, tudo abandonado e sem manutenção há 30 anos. Levou até 1992 para que todas as estações fossem reintegradas ao sistema de transporte.

estacoes-fantasmas-de-berlim-telefone-em-estacao-desativada

A exposição na Nordbahnhof é bem simples, mas muito interessante. A melhor parte são os depoimentos contando que os próprios guardas que deveriam proteger as estações de fronteira tentavam usás-la para escapar! rs

Não espere uma infraestrutura de museu, inclusive porque parte da graça é ver como várias dessas estações fantasmas têm um certo ar decadente.

estacoes-fantasmas-de-berlim-nordbahnhof-uma-das-estacoes-desativadas

Circulando pela cidade, a gente nota facilmente a diferença entre as estações que ficavam em Berlim Oriental e aquelas que pertenciam à Berlim Ocidental (mais propensas a terem sido modernizadas desde então).

O nosso albergue em Berlim Mitte ficava bem pertinho da estação Oranienburger Strasse, que também tinha sido abandonada durante a Guerra Fria. Vendo aquela região hoje cheia de vida, mal dá para imaginar a cidade cortada ao meio… Ainda bem!

Estacoes fantasmas de Berlim - Oranienburger Strasse em 2014

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7 Comentários

  1. Igor disse:

    Quando estive a primeira vez em Berlim, cheguei de madrugada pela rodoviária e meu primeiro contato com a cidade foi uma estação de metrô dessas. Bem macabro! Essa impressão, contudo, foi desfeita no restante da Viagem! Berlim é incrível!

  2. […] Do outro lado da rua, é possível visitar o antigo Centro de Refugiados Marienfelde, que recebeu mais 1 milhão e 350 mil alemães que fugiram do setor comunista entre 1949 e 1990. Mas imperdível mesmo é dar uma volta na estação Nordbahnhof S-Bahn, que fica bem ali na esquina, para ver a exposição sobre as Estações Fantasmas do metrô de Berlim. […]

  3. Fabi disse:

    Sensacional, não sabia dessa história por trás do metrô de Berlim!

  4. Guilherme disse:

    As histórias pregadas nas parades das fugas são muito boas. Eventualmente eles tiveram que criar mecanismos para que os próprios guardas não fugissem.

  5. […] 40 anos que se sucederam, Berlim viveu uma situação surreal: tinha uma “ilha” capitalista no meio de um país soviético. Berlim Ocidental fazia questão de exibir seu status e exaltar seus sinais de progresso, pois a […]

  6. Johnny disse:

    Acho que tem uma imprecisão na descrição. As linhas começavam e terminavam em Berlim Ocidental, cruzando uma parte de Berlim Oriental, e não o contrário. As duas linhas de metrô (e uma de trem) do setor oeste tinham permissão para cruzar o setor leste, mas as estações destas linhas dentro do setor leste foram desativadas.

    • Oi, Johnny! Você está certo. Me confundi com os termos e duas partes do texto ficaram realmente com falha de sentido. Olhei novamente os mapas para conferir e fiz as correções aqui no blog. Obrigada por notar e deixar um comentário! 😉

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