Relato de Bruno Correia, indie e nerd desde antes de virar modinha.

Nunca tive grande interesse pelo Japão. Tantos países no mundo para conhecer, queria priorizar aqueles por onde o Império Romano se estendeu (motivo pelo qual não tenho menor curiosidade de visitar a Escócia, por exemplo). Mas um amigo estava fazendo uma pós-graduação na Universidade de Kyoto, e percebi que se não fosse naquele momento, provavelmente jamais colocaria meus pés em terras nipônicas. Porque não é todo dia que você vai ter alguém já acostumado ao cotidiano de lá disposto a te oferecer hospedagem de graça.

Aproveitei a baixa temporada e o contrafluxo de turistas vindo para o Rio (Carnaval, no meio do inverno do hemisfério norte), e consegui uma passagem por um preço relativamente barato. E lá fui eu sozinho, praticamente sem nenhuma expectativa e pouca pesquisa, rumo ao Japão.

O belo Golden Pavillion, cartão postal de Kyoto

Peguei um voo com conexão via Houston (dez horas Rio-Houston, doze horas Houston-Tóquio), e é incrível a diferença entre os aviões que fazem a rota para o Brasil e para o Japão. O atendimento é o mesmo, mas o avião para o Japão era muito mais confortável (e aqui vai meu primeiro bizu: esse é o tipo de voo em que vale a pena pagar pelo assento próximo à saída de emergência, apesar da limitação de bagagem de mão e da responsabilidade).

O voo de Houston para o Japão foi uma experiência incrível: como o voo saia no começo da tarde, foram 12 horas ininterruptas de sol, e sobrevoar a costa americana, canadense, do Alaska e ver o estreito de Bering coberto de gelo proporciona uma visão incrível, caleidoscópica e quase alienígena.

Flores no inverno japonês

Flores no inverno japonês

Do aeroporto de Narita fui direto para Kyoto, onde passei uma semana com meu amigo, que morava em um alojamento da universidade nos arredores da cidade. Foi uma semana de aclimatação ao Japão, de imersão no seu cotidiano – fazer compras para a casa, lojas de conveniência, sistema de transporte, como é o serviço em restaurantes e lojas, além, é claro, de passeios a alguns lugares turísticos e outros frequentados apenas por locais.

Olhei para os meus pés e levei um susto: estou virando japonês! :P

Olhei para os meus pés e levei um susto: estou virando japonês! 😛

Uma vez em Kyoto, a primeira coisa que pedi ao meu amigo foi que me levasse a um restaurante, afinal eu vinha de 24 horas de viagem e por mais que a ração da Continental não fosse horrenda, precisava de comida de verdade. E então fomos a um… restaurante coreano, onde comemos coisas apimentadas e um certo tempurá de lula assustada. Acho que algo se perdeu na tradução.

Refeição japonesa: sopa com massa de peixe, nabo, ovo e arroz com um tipo de alga

Kyoto foi a capital do Japão antes de Tóquio e é uma bela cidade, com prédios baixos e um estilo de vida calmo, que não combina com a ideia que temos do Japão. Mas por ser espaçosa e com poucos prédios altos, é mais difícil de se localizar ou identificar onde é o melting pot, portanto ter um local ao lado foi fundamental.

Logo no primeiro dia fomos a Osaka assistir a um show da Joanna Newsom, que ia lançar um disco novo. Osaka fica a 45 minutos de trem do centro de Kyoto, e na verdade forma junto com Kyoto e Kobe um grande aglomerado urbano chamado Keihanshin (nome da região metropolitana formada pelas três cidades). O show aconteceu em um porão dificílimo de identificar (essa é talvez a maior barreira aos turistas: é comum locais de show e bares não possuírem nenhuma identificação para quem passa pela rua), e a combinação de um jetlag de 12 horas com a voz e arranjo suaves da cantora se manifestaram em uma crise narcoléptica (por inúmeras vezes me peguei em um estado entre o cochilo e o delírio em pé no meio de diversas pessoas).

 Bruno e o trem de alta velocidade Shinkansen, que liga Kyoto a Tokyo

Bruno e o trem de alta velocidade Shinkansen, que liga Kyoto a Tokyo

Visitamos o Sanzen-in (templo no distrito de Ohara que é muito visitado no outono, quando fica tudo vermelho) e diversos outros templos naquela semana (um mais incrível que o outro), enquanto explorávamos os arredores de Kyoto e eu me aventurava com a gastronomia local. Aos poucos, fui sendo apresentado a pequenas peculiaridades do dia-a-dia japonês:

– Ao pagar por algo você não entrega o dinheiro em mãos, mas em uma pequena bandeja com superfície ligeiramente côncava;

– Na maior parte dos restaurantes (os mais baratos) não existe um caixa, mas uma máquina na qual você escolhe o prato (você pode identificar o que vai comer por fotos) e insere o dinheiro. A máquina te dá o troco e uma ficha, que você entrega a um cozinheiro/balconista/garçon (quanto mais barato, mais multitarefa são os poucos funcionários);

Máquina de fichas em um restaurante

Máquina de fichas em um restaurante

– Depois dos restaurantes de máquina, a segunda opção de refeição mais barata é carne cozida ou frita (normalmente de porco) ou algum tipo de tempurá servido sobre uma tigela de arroz, acompanhado de algum legume ou verdura fermentado ou cozido. Opções mais elaboradas e nutritivas podem incluir um ovo cru, que deve ser quebrado sobre o arroz quente e misturado.

Sushi de esteirinha: no restaurante em que meu amigo me levou, todos os pratos custavam 120 ienes (quase sempre com 2 peças, embora os mais elaborados viessem com 1 só) e não faltavam combinações inovadoras. Na maior parte do tempo era escolher sem fazer perguntas e mandar pra dentro. Um dos pratinhos que comi era um hawaian roll, uma espécie de california com abacate em vez de manga. Ou seja, aquele papinho de que “california e philadelphia é traição a tradição” é pura balela.

Enroladinho com carne cozida e gema crua (!!!) na esteira de sushi

– Ao contrário do que esperamos, o arroz é relativamente caro no Japão. A opção mais barata de refeição são os Cup Noddles, Lamens e Ramens (nosso bom e velho miojo), que podem ser encontrados em uma imensa variedade, do copinho ao prato descartável com acompanhamentos desidratados, como ervas e tofu, além de molhos condimentados. Pode acontecer de você só descobrir o sabor ao comer, e às vezes nem mesmo assim…

– Carne de vaca é item caríssimo, praticamente de luxo e apenas para ocasiões especiais. E não pense que você vai entrar no supermercado e comprar uma peça de alcatra ou mignon: as carnes são vendidas em fatias finíssimas e você só consegue ter uma noção do que é carne de primeira ou de segunda pelos preços estampados nas bandejas (porque quase toda a carne tem uma grande quantidade de gordura entremeada entre as fibras);

Carne de primeira, de segunda, de terceira… Para diferenciar, só o preço

– Por outro lado, uma bandeja de shitake ou shimeji que por aqui custa em uns R$ 12, lá sai quase de graça, por menos de um real (e pouco antes de o supermercado fechar, eles baixam ainda mais o preço). E que variedade de cogumelos!

– Não importa o restaurante que você vá, a menos que você coma no McDonald’s, quase toda a comida tem uma reminiscência do aroma de mar, provavelmente do hondashi usado em profusão. Senti esse gosto mesmo quando em um restaurante indiano, e mesmo quando tomava sorvete de matchá (que é delicioso!);

Meu reino por um sorvete de matcha! Típico de Uji, o sorvete é polvilhado pelo pó do chá

– Muitos restaurantes tem um pote de gengibre rosa agridoce ralado (quase que o equivalente ao nosso sal e azeite às mesas). Essa talvez seja a coisa que mais sinto falta do Japão, lembra um pouco o nosso gengibre de restaurante japonês, só que muito mais delicioso – e de graça.

– É virtualmente impossível você manter contato com os locais. Meu amigo passou dois anos e, fora alguns conhecidos da universidade, a imensa maioria das pessoas com quem teve contato foram outros estrangeiros. Bar, show, restaurante, fila de banco ou transporte público: esqueça da nossa facilidade de puxar papo com estranhos a qualquer momento – especialmente se você não falar japonês.

Ainda no meu segundo ou terceiro dia de Japão, ainda muito afetado pelo jetlag, perguntei ao meu amigo se era verdade os tais vasos sanitários tecnológicos japoneses. Ele não tinha um desses em seu apartamento, mas ele comentou que realmente eles são muito comuns, e alguns possuem não apenas a ducha higiênica embutida como assento aquecido, todo jato d’água morna direcionável e secador de ar quente!

O vaso tem 3 tipos de fluxo de água aquecida (jato, spray e jato feminino), com controle de pressão. São tantas opções!

Com meus intestinos ainda não acostumados ao fuso horário, calhou de eu necessitar de banheiro perto de um MacuDonarudo (MacDonald’s em japonês, ou apenas Macu para os íntimos), e foi lá que fui apresentado à maior contribuição do hemisfério oriental à civilização.

A preocupação com o bem-estar do ser humano em seu momento mais privado me levou a todo um novo nível de iluminação, e fez compreender o quanto estamos perdendo por nos prender a parâmetros de felicidade ocidentais. Aquilo é civilização e dignidade em seu estado mais supremo.

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11 Comentários

  1. carla disse:

    Eu tenho curiosidade sobre o Japão, mas ainda não tive coragem de pensar seriamente na possibilidade….As 24h de viagem me desanimam e a comida me deixa mais assustada do que a lula do almoço do Bruno…rs

  2. Nanda disse:

    Hahaha! Também tenho medinho do choque cultural ser grande demais, mas tenho a maior vontade de viajar para o Japão um dia e me diverti demais com esse post!
    Agora, antes que eu me esqueça, a Escócia é legal pra caramba! Quem sabe as lendas por trás dos pubs convencem o Bruno: http://vontadedeviajar.com/cada-pub-uma-lenda/

  3. Guilherme disse:

    Muito bom o relato! Eu teria uma visão não muito prática sobre essa experiência mas essas dicas são as que fazem toda a diferença.

  4. Marcos Malagris disse:

    É meu sonho conhecer o Japão. E eu nem sei direito o motivo. Esse post só me deixou com mais vontade.

    Quero comer essas comidas, quero andar pelas ruas, quero não entender nada e voltar par ao hotel/albergue com dor de cabeça de tanto ver novidade.

    Um dia…

  5. Juliana disse:

    Sempre quis viajar pro Japão mas acho que não vou fazer isso tão cedo, me dá um certo medo pensar em ir pra lá… rs

  6. Esse post foi listado entre os melhores de 2012. Descubra quais foram as outras grandes viagens do blog clicando aqui.

  7. Danilo Crespo disse:

    Eu estou indo, mês que vem, estudar na universidade de Kyoto! Adorei o post e queria muito conversar com seu amigo haha!

  8. Nanda disse:

    Oi, Danilo! Que oportunidade legal! Vou te passar o contato dele. Quem sabe você não traz mais umas dicas do Japão para a gente? 🙂 Abs e boa viagem!

  9. silviamedina disse:

    Parabens pelo blog! Tambem escrevo. Atualmente moro na Australia, e ja fui pro Japao, amei!!!!

  10. Erika Ezaki disse:

    Nossa amei o post!! Vivo no Japão há 10 anos, e e tudo assim mesmo!!Amo viajar, principalmente pelo Japão!!! Não sendo puxa-saco, mas aqui e realmente maravilhoso passear!! Povo civilizado, tranquilo, seguro, limpo… Vc pode ter certeza q andará tranquilo pelas ruas, sem ter que se preocupar com sua bolsa, celular ou de pisar em algum coco de cachorro…Só prepare o bolso, porque o custo de vida e alto.. Oq faz as coisas serem mais “salgadas”….rsrs

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